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Pra Cantar coco


Dança estudada pelo músico e antropólogo Ninno Amorim apresenta sonoridas de ascendência africana e nativo-americana.

Ex-integrante do grupo Água de Quartinha, Ninno Amorim apresenta domingo (08/04/07), na Quadra do CEU (UFC, Fortaleza-CE), o espetáculo "Cocos do Norte", ponte entre pesquisa acadêmica e a re(criação) do gênero musical - fortemente presente, também no Ceará.

O coco é, também, cearense. Quem duvidar, que confira o som do Coco do Iguape, ou atente para a batida que se faz presente em grande número de manifestações de música e dança - principalmente, mas não apenas, naquelas mais ligadas à cultura popular. Dos grupos mais tradicionais até os recorrentes trios de forró (que tocam coco, xotes, xaxados, baiões), passando por bandas que se valem da batida do coco para temperar suas fusões de timbres, ritmos e linguagens sonoras.

Com pelo menos quatro anos dedicados a pesquisar o coco e os ritmos que o ladeiam, o antropólogo e músico Ninno Amorim apresenta este domingo, a partir das 20h, um espetáculo que faz a ponte entre seus trabalhos acadêmico e artístico. “É mais do que coco. É toda a influência da música que restou depois do assassinato das culturas africanas e indígenas aqui no país. Ficaram várias formas de danças e de música”, amplia. “Uma delas é o coco, o carro-chefe do repertório. Mas tem 'boi' e coisas que eu não sei dizer o nome, ritmos que a gente vai misturando. O fio da coisa são os os tambores e as vozes”, detalha o pesquisador.

Mas a formação, que faz sua estréia no domingo de Páscoa, conta com outros instrumentos. Como a viola de gamba e o contrabaixo eletrônico de Jorge Santa Rosa e o violão de Felipe Breier. Nas percussões e no canto, Ercília Lima, Rodrigo de Oliveira, Daniel Leão e o próprio Ninno Amorim, que comenta: “É uma estréia que já vem sendo pensada há dois anos, como uma forma de levar esse trabalho da academia pra linguagem musical. Futuramente queremos acrescentar também a dança”, diz, revelando que uma próxima apresentação deverá acontecer no encerramento da Semana de Humanidades da UFC (de 24 a 27 de abril).

“Essa formação, com baixo, viola de gamba, um instrumento medieval, mais associado à música de câmara, junto com os tambores, é algo inusitado também, um desafio. Mas a gente fez questão, até porque eu não separo tipos de música entre 'popular' e 'erudito'. Pra mim, eu tô fazendo música”.


Repertório autoral

Pernambucano criado na Paraíba e radicado por aqui, Ninno avisa que “Cocos do Norte” privilegia sua produção autoral. “Pensamos mais em criar do que em reproduzir. Pô, nós somos urbanos, né, bicho? Eu não sou pescador. Canto coco, mas sou urbano, letrado. Não adianta, seria forçação de barra, caricaturar, se quisesse fingir. Em nenhum momento pensei em fazer isso”, justifica. Assim, o repertório do show passeia por criações de Ninno sozinho (“Convite” e “Canto pra Iaiá”) ou com parceiros como Alan Mendonça (no “Brasileiro”, “mais puxado pra batida do boi”), Thaís Alberto (“Feitiço”).

“É um trabalho, de certo modo, próximo do que a gente fazia com o Água de Quartinha”, situa o músico, fazendo referência também ao nome do espetáculo, emprestado da música de Rosil Cavalcante, um dos autores mais gravados por Jackson do Pandeiro. “Responda esse coco com palma de mão / Isso é coco do norte, nunca foi baião”.

“Chegou a haver uma polêmica, que não foi muito adiante, mas Rosil acusava Luiz Gonzaga de se apropriar do ritmo que já era coco, só mudando o nome pra baião”, conta Ninno. “Agora, não acredito que ele tenha feito isso, porque existem tantos ritmos importantes, tanta mistura”, avalia o pesquisador, cuja monografia de graduação em Ciências Sociais centrou foco no Coco do Iguape. E que agora, no mestrado, conta com a orientação da professora Sulamita Vieira para desenvolver uma dissertação mais abrangente, sobre a presença do coco no Ceará.

“Em 1938, Mário de Andrade já sabia dessa dificuldade de dizer o que era coco, porque foi ficando muito conhecido no Nordeste, tudo que as pessoas faziam chamavam de coco. Ele ficou encantado com o coco na Paraíba e com o coquista Chico Antonio no Rio Grande do Norte, mas disse que não encontrou coco no Ceará”, cita, mencionando, em contraponto, gravações com o Coco do Iguape feitas por pesquisadores norte-americanos e professores da USP na década de 70, hoje guardadas no acervo do Instituto do Ceará.

“Uma parte da dissertação é falar desses grupos, dizer minimamente onde estão e como se organizam. A outra é mostrar como se relacionam com as políticas culturais que chegam nessas pessoas - quando chegam”, detalha Ninno Amorim, frisando se ater mais aos aspectos culturais e antropológicos que às questões técnicas e musicais. “Meu olhar é antropológico. Mas estou inserido num grupo de etnomusicologia, que se preocupa com isso. Então vamos fazer a descrição dos insturmentos que eles usam, como confeccionam, como são artigos tanto de trabalho quanto de lazer. Também uma descrição da forma dos versos, e de quem são essas pessoas, de quem descendem, dos índios, africanos, de quem estava aqui. Aí a etnomusicologia e a antropologia se encontram”, aponta, citando a colaboração do músico e professor Tarcísio José de Lima (Quinteto Agreste) para o que deverá ser um livro sobre o coco no Ceará.

“Seja qual for o nome dado a essas práticas culturais, jamais conseguiremos definir exatamente de onde veio cada uma delas. Relevante mesmo é viver as distintas interpretações dos grupos que as praticam por todo o país, inclusive aqui”.

DALWTON MOURA
Repórter

P.S. Essa matéria passou por algumas modificações necessárias ao entendimento de outras pessoas que não moram em Fortaleza, mas as mudanças não ferem o conteúdo do autor da entrevista. Para ver o texto original consulte o jornal Diário do Nordeste, de 06/04/07, Caderno 3.

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